PRÓLOGO - A promessa
Base: João 3:1-7 (Nicodemos / "nascer de novo") e João 14:15-17 (a promessa do Consolador).
Clima / luz / som
Penumbra azulada, como uma noite de Jerusalém. Um único foco de luz quente no centro. Ao fundo, imóveis, o coral, de cabeça baixa, com lanternas apagadas.. Som ambiente baixíssimo: vento leve, um sino distante.
Personagens em cena
- Guardião;
- Nicodemos;
- Jesus;
- Coral;
- Solista.
Cena
(Entra o GUARDIÃO DA PROMESSA, caminhando devagar à frente do palco. Fala ao público, como quem guarda um segredo antigo.)
GUARDIÃO:
Há promessas que o tempo não apaga. Esta começou numa noite assim - escura, calada - quando um homem importante teve coragem de procurar a Verdade longe dos olhos dos outros. Escutem.
(O Guardião recua para a sombra. Sobe a luz quente no centro: JESUS, sereno. NICODEMOS,aproxima-se, hesitante, olhando para os lados.)
NICODEMOS:
Mestre… vim de noite, perdoa. De dia, todos me observam. Mas eu precisava te ouvir. Ninguém faz o que tu fazes se Deus não estiver com ele.
JESUS:
Nicodemos, eu te digo uma verdade: ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo.
NICODEMOS:
(confuso, quase rindo de nervoso)
Nascer de novo? Mas eu já sou velho, Mestre! Como alguém pode voltar a nascer? Ninguém entra outra vez na vida que já viveu.
JESUS:
Não falo do corpo, Nicodemos. Falo do espírito. O que nasce da carne é carne; o que nasce do Espírito é espírito. Não te admires de eu dizer: é preciso nascer de novo.
NICODEMOS:
(baixinho, tocado) Então há mais caminho do que uma só vida…
JESUS:
(com ternura) Há. E porque o caminho é longo, ninguém o faz sozinho.
(Jesus se volta para o público, ergue um pouco o olhar - como quem fala para muito além daquela noite.)
JESUS:
Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para ficar convosco para sempre: o Espírito da Verdade. O mundo, distraído, não vai percebê-lo logo. Mas ele virá, e vai ensinar todas as coisas, e lembrar tudo o que eu disse a vocês.
(Pausa. Ao fundo, o coral se ilumina com lanternas e move levemente em direção à luz, mas as luzes ainda não sobem. A promessa apenas os desperta; o brilho vem a seguir.)
Coral / Poesia / Coral / Ezpositor
CORAL
E são chegados os tempos,
não temos tempo a perder,
Já foi lançada a semente,
Há tanta coisa a se fazer,
Acolher corações,
amar é nosso papel,
Unificar as nações,
erguer os olhos pro céu.
(A música segue em instrumental, mais suave, sustentando o clima. O Guardião retorna à frente e recita sobre o fundo musical:)
GUARDIÃO
(POESIA)
Uma promessa foi semeada na noite,
pequena como um grão, calada como a luz.
Vai atravessar o mar, os séculos, a sorte,
e onde a verdade chamar, a promessa conduz.
Guardem comigo o que Ele disse e prometeu:
O Consolador virá - e já vem vindo.
Sigam a luz que essa noite acendeu,
que a história inteira é essa promessa se cumprindo.
(Ao terminar a poesia, o coral repete a canção - agora com voz plena, fazendo a ponte para o expositor. Ao final do refrão, a música baixa e o expositor entra.)
CORAL
E são chegados os tempos,
não temos tempo a perder,
Já foi lançada a semente,
Há tanta coisa a se fazer,
Acolher corações,
amar é nosso papel,
Unificar as nações,
erguer os olhos pro céu.
(A música se mantém, instrumental. Luz se concentra no expositor.)
EXPOSITOR
Essa promessa tem mais de dois mil anos. Um Consolador que viria ensinar, lembrar, consolar. A pergunta que move o nosso espetáculo é simples: será que ela se cumpriu? Onde? Como? Vem com a gente seguir o rastro dessa luz pela história.
(As luzes iluminam todo o palco em tom quente. A cantora entra em solo, cantando a música completa e será acompanhada pelo coral no refrão)
MÚSICA
SOLISTA
Já não há lugar onde a luz não possa alcançar
Já não há um coração que não carregue o gérmen do amor
Já podemos divisar no final da estrada de luta e dor
Os olhos calmos e serenos do Senhor
CORAL
E são chegados os tempos, não temos tempo a perder
Já foi lançada a semente e há tanta coisa a se fazer
Acolher corações, amar é nosso papel
Unificar as nações, erguer os olhos pro céu
SOLISTA
Cada voz que cante a paz, cada mão que plante a caridade
Cada um de nós se faz mensageiro da felicidade
Trilharemos sempre, sim, indo ao encontro de Jesus
Nessa caminhada de luz sem fim
CORAL
E são chegados os tempos, não temos tempo a perder
Já foi lançada a semente e há tanta coisa a se fazer
Acolher corações, amar é nosso papel
Unificar as nações, erguer os olhos pro céu
E são chegados os tempos, não temos tempo a perder
Já foi lançada a semente e há tanta coisa a se fazer
Acolher corações, amar é nosso papel
Unificar as nações, erguer os olhos pro céu
SOLISTA
Erguer os olhos pro céu
ATO 1 - As irmãs Fox
Hydesville, 1848 - “As primeiras batidas”
Clima / luz / som
Luz baixa, azul-acinzentada, como noite fria.
No centro de uma pequena casa simples: cadeiras, lamparina ou vela, alguns panos.
Som ambiente: vento leve, madeira rangendo, silêncio de interior.
As batidas devem ser feitas por alguém escondido batendo em madeira.
O ritmo das batidas precisa ser claro.
Personagens em cena
- Sra.Fox;
- Margaret;
- Kate;
- John Fox;
- Vizinha 1;
- Vizinha 2;
- Vizinha 3;
- Vizinha 4;
- Leah;
- Isaac Post;
- Coral;
- Expositor.
Cena
(Após a abertura musical, a luz vai diminuindo. O palco esfria. O Guardião da Promessa entra devagar, trazendo a mesma energia do Prólogo, mas agora em outro tempo histórico.)
GUARDIÃO
A promessa atravessou séculos.
Passou por impérios, templos, guerras, silêncios.
E quando muitos já não sabiam mais esperar,
ela não bateu à porta de um palácio.
Bateu numa casa simples.
Numa noite comum.
No coração de uma família.
(Pequena pausa.)
Hydesville. Estado de Nova Iorque.
Ano de 1848.
(O Guardião se recolhe para uma lateral. A luz abre sobre a casa dos Fox.)
Parte 1 - A casa
(Sra. Fox arruma a casa. John Fox examina a porta ou a janela. Margaret e Kate estão próximas à mesa. Margaret, mais cautelosa; Kate, mais curiosa.)
SRA. FOX:
Meninas, já está tarde. Amanhã conversamos sobre isso.
MARGARET:
Mas, mãe… a senhora também ouviu.
JOHN FOX:
Casas antigas fazem barulho. Madeira trabalha. O vento entra pelas frestas.
KATE:
Mas o vento não responde.
(Silêncio.)
JOHN FOX:
Kate…
KATE:
Eu sei o que ouvi.
(Uma batida seca.)
TOC.
(Todos param.)
MARGARET:
Foi isso.
(Outra batida.)
TOC.
SRA. FOX:
John…
JOHN FOX:
Fiquem aí.
(Ele examina o chão, a parede, a porta. Bate com o pé no chão. Nada.)
JOHN FOX:
Não há nada aqui!
(Três batidas.)
TOC. TOC. TOC.
(Margaret se aproxima da mãe. Kate, ao contrário, dá um passo à frente.)
MARGARET:
Kate, não chega perto.
KATE:
Eu não estou chegando perto. Eu só quero saber se… se isso entende a gente.
SRA. FOX:
Não diga bobagem, menina.
KATE:
Se entende, pode responder.
(Kate respira, mistura de curiosidade e corageml. Ela dá um passo à frente, olhando para a parede, para o chão, sem saber exatamente de onde vem o som.)
KATE:
Senhor Pé-Rachado… faça o que eu faço.
MARGARET:
Pé-Rachado?
KATE:
É… Coisa Ruim, Capiroto, essas coisas…
(Margaret arregala os olhos, faz rapidamente o sinal da cruz e se afasta um passo.)
MARGARET:
Deus me livre!
(Pequeno respiro cômico. A Sra. Fox olha para as duas, meio repreendendo, meio assustada.)
SRA. FOX:
Meninas…
KATE:
Está bem, está bem…
(Kate volta a olhar para o ponto de onde parecem vir as batidas. Agora fala com mais clareza, quase desafiando.)
KATE: Então faça como eu faço.
(Ela bate palmas duas vezes.)
PALMA. PALMA.
(Silêncio curto.)
(Duas batidas respondem.)
TOC. TOC.
(Todos congelam por um instante.)
KATE:
Eu sabia!
Mãe, agora tente a senhora!.
SRA. FOX:
Eu?
KATE:
Isso, peça para contar.
(Sra. Fox, assustada, fala com cuidado.)
SRA. FOX:
Então… faça exatamente como eu disser. Conte: um, dois, três, quatro.
(Quatro batidas.)
TOC. TOC. TOC. TOC.
(Silêncio grande.)
MARGARET:
Ele contou…
(John Fox, fala, com um misto de seticidade e medo)
JOHN FOX:
Isso… (tentando achar alguma racionalidade) não… não prova nada… eu acho…
KATE:
Prova que não é só barulho.
(A Sra. Fox toma coragem.)
SRA. FOX:
Se há alguém aqui… se é um Espírito… dê duas batidas.
(Duas batidas.)
TOC. TOC.
MARGARET:
(apavorada, corre pra trás da mãe) CreinDusPai!!! Um Espírito?
JOHN FOX:
Margaret, mantenha calma!
Eu vou tentar.
(Falando olhando pro “além”) Foi assassinado nesta casa? Se foi, dê duas batidas.
(Duas batidas mais fortes.)
TOC. TOC.
(Breve silêncio.)
KATE:
Ele quer contar alguma coisa!
MARGARET:
Mas como?
(Luz muda levemente. Três vizinhas entram fofocando)
VIZINHA 1:
Vocês viram o que está acontecendo na casa dos Fox?
VIZINHA 2:
Disseram que um espírito responde por pancadas.
VIZINHA 3:
Isso deve ser algum truque!
(Elas chegam próximas à família)
VIZINHA 4:
Bom dia vizinhos, soubemos dos… (curiosa) últimos acontecimentos.
JOHN FOX:
Mais essa agora… vizinhas curiosas.
Já procuramos pela casa inteira, não há nad…(Uma batida interrompe.)
TOC.
(Vizinhas se assustam)
VIZINHO 2:
Queremos ver, façam outra pergunta.
JOHN FOX:
Espírito, se consegue nos ouvir, dê duas batidas.
TOC. TOC.
(As vizinhos se entreolham.)
VIZINHO 3:
Seja o que for, parece responder.
JOHN FOX:
É, parece. Mas ainda não temos certeza do que isso quer.
KATE:
Então precisamos continuar perguntando.
(O Guardião atravessa lentamente a cena.)
GUARDIÃO:
Naquele dia, os vizinhos vieram. O espanto saiu de dentro da casa e começou a se espalhar. Mas a história não parou em Hydesville.
Parte 2 - Rochester
(A luz da casa diminui. Projeção: “Rochester — 1848”. Margaret e Kate permanecem; a mudança de luz indica outro lugar e outro momento. Entra Leah Fox. A três irmãs estão conversando sobre os fenômenos)
MARGARET:
(para Leah)
Que saudades, minha irmã!
LEAH:
Eu também estava com saudades! Mas me expliquem mais sobre o que aconteceu!
KATE:
Não sabemos explicar, só sabemos que tem um espírito falando com a gente por pancadas.
LEAH:
Sim, isso eu soube.
(três batidas. Toc, Toc, Toc)
MARGARET:
Ai, meu Deus! Até aqui!
LEAH:
Calma, é só alguém na porta. Tomei a liberdade de chamar um antigo amigo da família para ajudar, o Sr. Isaac Post.
ISAAC POST:
Boa tarde meninas! Como estão. Ouvi falar das pancadas. Disseram que vocês conseguem obter respostas.
KATE:
Às vezes.
MARGARET:
Primeiro eram só sinais. Agora tentamos entender melhor.
ISAAC POST:
Poderíamos tentar de uma maneira diferente?
Vamos usar letras. Eu digo o alfabeto devagar. Quando chegar à letra desejada, esperamos a batida.
KATE:
Vamos tentar.
ISAAC POST:
A… B… C… D… E…
(Uma batida.)
TOC.
MARGARET:
Letra E.
ISAAC POST:
Vamos mais uma vez..
(O exercício continua simbolicamente. O coral entra, transformando o procedimento em composição cênica.)
CORAL:
(cada frase é repetida após uma batida)
Uma batida.
Depois outra.
Uma pergunta.
Depois outra.
Um sinal virou letra.
A letra virou palavra.
O espanto virou notícia.
E a notícia começou a viajar.
(As batidas formam um ritmo discreto.)
TOC. TOC.
TOC.
TOC. TOC. TOC.
KATE:
Está respondendo…
MARGARET:
Então precisamos descobrir quem responde.
(O Guardião caminha ao centro. As personagens congelam numa imagem de investigação)
(Fundo musical suave. As batidas viram parte do acompanhamento.)
GUARDIÃO:
(POESIA)
Na madeira simples da casa,
a história encontrou sinal.
Não veio em voz de trombeta,
nem em templo monumental.
Veio pequena, insistente,
batendo para acordar:
há vida além desta vida,
há vozes além do olhar.
E a promessa, antes semente,
começou a germinar.
O Consolador não chegaria pronto:
viria ensinando a perguntar.
(Últimas três batidas.)
TOC. TOC. TOC.
(Luz baixa na família. Foco no expositor.)
EXPOSIÇÃO DOUTRINÁRIA
EXPOSITOR:
O que acabamos de representar tem como ponto de partida os acontecimentos de Hydesville, no Estado de Nova York, nos Estados Unidos.
No final de 1847, John e Margaret Fox passaram a viver naquela casa com as duas filhas mais novas, Margaret — também chamada Maggie — e Catherine, conhecida como Kate. A irmã mais velha, Leah, já era adulta e vivia em Rochester.
A família começou a relatar ruídos dentro da casa: pancadas nas paredes, no chão e nos móveis, sem que encontrassem uma causa evidente.
Na noite de 31 de março de 1848 aconteceu aquilo que tornaria o episódio conhecido.
Segundo os relatos da família e das pessoas que acompanharam os fatos, Kate percebeu que as pancadas pareciam responder ao que ela fazia. Ela produzia determinados sons, e as batidas se repetiam. A mãe das meninas começou então a fazer perguntas e a estabelecer sinais para as respostas.
Vizinhos foram chamados e também acompanharam as experiências.
A família interpretou aquelas respostas como manifestação de um Espírito e passou a associá-lo à história de um homem que teria sido assassinado naquela casa. Esse detalhe, porém, precisa ser contado com cautela: a identidade desse suposto homem e as circunstâncias do alegado crime não foram demonstradas historicamente de forma conclusiva.
Depois, as meninas foram para Rochester, onde o caso ganhou uma dimensão muito maior.
Entre as pessoas que se aproximaram delas estavam Isaac e Amy Post, um casal quaker conhecido também por seu envolvimento com causas sociais, como o abolicionismo e os direitos das mulheres.
Isaac Post participou das experiências em Rochester e do desenvolvimento do uso do alfabeto para tornar as respostas mais complexas. As fontes não são totalmente uniformes sobre quem primeiro teve a ideia do método alfabético; por isso, o mais seguro é dizer que ele foi um dos participantes importantes no aperfeiçoamento e na divulgação desse processo.
Funcionava de maneira simples: as letras eram pronunciadas sucessivamente, e uma pancada indicava a letra desejada. Assim, em vez de somente “sim” e “não”, tornava-se possível formar palavras e mensagens.
Em novembro de 1849, as irmãs Fox participaram de demonstrações públicas em Rochester, inclusive no Corinthian Hall. Comissões foram organizadas para examinar as manifestações e procurar sua causa. O assunto passou a chamar a atenção da imprensa, de religiosos, pesquisadores, curiosos e críticos.
E é aqui que precisamos mencionar uma controvérsia importante para contar essa história com honestidade.
Quarenta anos depois, em 1888, Margaret Fox declarou publicamente que as batidas haviam sido produzidas fraudulentamente pelas irmãs. No ano seguinte, porém, retirou aquela declaração e voltou atrás no que havia afirmado.
Por isso, a controvérsia sobre as irmãs Fox faz parte da própria história do movimento. Não é correto apresentar a questão como se nunca tivesse existido, nem afirmar que ela tenha sido resolvida de forma simples e definitiva.
Mas a relevância histórica de Hydesville não depende de provar que cada manifestação atribuída às irmãs Fox foi autêntica.
O ponto histórico é outro.
A partir de 1848, o caso Fox ajudou a desencadear nos Estados Unidos um enorme movimento de interesse pela possibilidade de comunicação com os mortos. Fenômenos semelhantes passaram a ser relatados em muitos lugares, grupos de investigação surgiram e esse conjunto de movimentos ficou conhecido como Espiritualismo Moderno.
E atenção: ainda não estamos falando do Espiritismo.
As irmãs Fox não fundaram o Espiritismo. Não criaram uma Doutrina e não organizaram um sistema filosófico e moral.
O que existia naquele momento eram fenômenos, interpretações e perguntas.
Aqueles que morreram continuam existindo?
É possível haver comunicação com eles?
Quem produz essas manifestações?
Como separar um fenômeno verdadeiro de engano, fraude ou imaginação?
Hydesville não respondeu a tudo isso.
Mas ajudou a colocar essas perguntas diante do mundo.
E, poucos anos depois, o movimento atravessaria o Oceano Atlântico.
Na Europa, as pancadas continuariam — mas os móveis também começariam a se mover.
E as mesas começariam a girar.
ATO 2 - As mesas girantes
Europa, década de 1850 - “A febre dos salões”
Clima / luz / som
Luz mais quente, elegante, com aparência de salão social. Música instrumental leve.
Europa, anos 1850 - Paris descobre as mesas girantes
No centro, uma mesa pequena. Os convidados conversam próximos a ela.
A ideia é mostrar a transição:
brincadeira → curiosidade → fenômeno → pergunta séria → necessidade de método.
Personagens em cena
- Guardião;
- Madame Delorme, anfitriã do salão;
- Armand, convidado cético;
- Claire, convidada curiosa;
- Henrieta, convidada entusiasmada;
- Coral;
- Expositor.
Cena
(Nota de encenação: o salão e seus convidados são uma composição dramatúrgica baseada na atmosfera das reuniões europeias da década de 1850; não representam uma sessão histórica específica.)
(O som das batidas do Ato 1 continua no escuro. Aos poucos, essas batidas se misturam com música de salão. Quando a luz sobe, vemos um salão europeu. Pessoas conversam, riem, abanam leques, seguram jornais. No centro, uma mesa.)
(Entra o GUARDIÃO DA PROMESSA, caminhando entre os convidados, os convidados não o percebem, como se estivesse em uma dimensão paralela.)
GUARDIÃO:
As batidas de Hydesville não ficaram presas naquela casa. A notícia atravessou vilarejos, cidades, jornais… e então atravessou o oceano. O que começou como espanto numa família simples, chegou aos salões da Europa como novidade, como moda, como diversão. Mas, por trás da curiosidade, havia uma pergunta esperando para nascer.
(O Guardião se recolhe. O salão ganha vida.)
(MADAME DELORME, anfitriã do salão, está ao lado da mesa. CLAIRE, HENRIETA, ARMAND e outros convidados se aproximam.)
MADAME DELORME:
(Animada) Meus amigos, aproximem-se! Hoje, nossa noite será diferente. (tentando gerar curiosidade) Não falaremos de política, nem de vestidos, nem de ópera.
CLAIRE:
(Em tom de deboche) Então será uma noite curta.
(Pequena risada dos convidados.)
MADAME DELORME:
(Entusiasmada) Esta noite veremos a mais nova curiosidade de Paris: a mesa que gira.
ARMAND:
(Debochado) Ah, pronto! Agora os móveis também querem participar da conversa.
HENRIETA:
O senhor pode rir, Armand, mas há relatos por toda parte.
ARMAND:
Relatos há de tudo. De fantasma, de cura milagrosa, de parente que viu luz no cemitério…
CLAIRE:
(tentando assustar Armand) E de gente cética que muda de ideia… (sobe o tom da voz para assustar) quando a cadeira range atrás dela!
(Os convidados riem. Armand olha para trás, fingindo susto.)
ARMAND:
(se recuperando do susto) Se a cadeira ranger… eu culpo a madeira. Sempre a madeira.
MADAME DELORME:
Então venham. Senten-se e coloquem todos as mãos sobre a mesa. Levemente. Sem empurrar.
(Todos colocam as mãos sobre a mesa. A música baixa. Silêncio.)
HENRIETA:
E agora?
MADAME DELORME:
Esperamos.
ARMAND:
(Debochado) Excelente. Uma noite inteira olhando para uma mesa. Paris se superou.
(A mesa dá um leve estalo.)
TOC.
(Todos olham.)
CLAIRE:
Foi a madeira?
ARMAND:
Naturalmente.
(Outro estalo.)
TOC.
HENRIETA:
Que madeira insistente, essa..
(Pequeno riso nervoso.)
MADAME DELORME:
Silêncio… vamos tentar.
(Ela fala com cuidado, ainda com certo tom de brincadeira.)
MADAME DELORME:
Se houver alguma inteligência presente, faça a mesa se mover.
(A mesa se move muito levemente. Os convidados reagem com susto, tirando as mãos rapidamente.)
CLAIRE:
Eu não empurrei!
HENRIETA:
Nem eu!
ARMAND:
Alguém empurrou!
MADAME DELORME:
Armand, as mãos de todos estão leves sobre a mesa, você está vendo!
ARMAND:
Justamente!
Estou aqui para impedir qualquer enganação.
(A mesa dá duas pancadas com um dos pés.)
TOC. TOC.
(Os convidados se espantam)
CLAIRE:
(Em tom de sussurro) Dizem que ela responde perguntas.
ARMAND:
A mesa?!
HENRIETA:
Não a mesa, seu tolo.
A inteligência por trás do fenômeno.
ARMAND:
Ah tah! Agora a mesa tem cérebro!
MADAME DELORME:
Vamos fazer assim, uma batida para sim, duas para não.
CLAIRE:
Posso perguntar?
MADAME DELORME:
Pergunte.
CLAIRE:
Vou me casar este ano?
(Uma batida.)
TOC.
CLAIRE:
(Entusiasmada) Sim!
ARMAND:
(Debochado) Essa mesa é beeeem otimista.
HENRIETA:
Pergunte com quem.
CLAIRE:
Com alguém desta sala?
(Silêncio. Duas batidas.)
TOC. TOC.
CLAIRE:
Ufa! Que alívio.
(Todos riem. Armand se ofende de brincadeira.)
ARMAND:
Eu também agradeço.
MADAME DELORME:
Meus amigos, cuidado. Talvez estejamos brincado com algo mais sério.
ARMAND:
(para Madame Delorme, impaciente) Deixe de besteira! Anda explique. Que truque é esse? Eletricidade? Magnetismo? O que?
MADAME DELORME:
Não há truque Armand.
CLAIRE:
Pode ser alguém tentando falar.
ARMAND:
Alguém? Quem?
(Pausa.)
MADAME DELORME:
Vamos perguntar.
(Ela respira, agora sem frivolidade.)
MADAME DELORME:
Você é um Espírito?
(Uma batida.)
TOC.
(O salão fica em silêncio. A palavra “Espírito” muda tudo.)
ARMAND:
Só isso não basta.
HENRIETA:
Mas também não dá para ignorar.
CLAIRE:
Talvez seja como em Hydesville. As batidas… o alfabeto…
MADAME DELORME:
Então façamos como fizeram lá. Letras.
ARMAND:
Agora vamos alfabetizar a mobília?
CLAIRE:
Armand!
ARMAND:
Está bem. Estou quieto. Mas estou quieto cientificamente.
MADAME DELORME:
Eu direi as letras. Quando chegar à certa, dê uma batida.
(O grupo fica concentrado. A música some. A luz fecha mais na mesa.)
MADAME DELORME:
A… B… C… D… E…
(Uma batida.)
TOC.
HENRIETA:
Letra E!
MADAME DELORME:
P…Q…R…S…
(Uma batida.)
TOC.
CLAIRE:
S.
(A cena congela)
CORAL:
(Depois do alfabeto, cada frase será falada após uma batida)
A… B… C… D… E…
Uma batida.
Uma letra.
Uma palavra.
Uma pergunta.
Uma porta.
(Letras são projetadas soltas no fundo. A mesa dá pancadas em ritmo crescente, mas controlado.)
TOC. TOC.
TOC.
TOC. TOC. TOC.
ARMAND:
Esperem.
(Todos param.)
ARMAND:
Eu não estou dizendo que acredito. Mas… se isso responde, então não basta brincar. É preciso entender.
HENRIETA:
Entender como?
ARMAND:
Observando. Comparando. Testando. Separando o que é fato do que é imaginação.
(O Guardião se aproxima, como se essa fala abrisse o caminho para Kardec.)
GUARDIÃO:
E era exatamente isso que faltava.
(Os convidados congelam ao redor da mesa. A luz do salão diminui, ficando apenas a mesa iluminada.)
Poesia / transição curta
(Fundo instrumental discreto. Pode haver um som leve de mesa sendo arrastada, quase como respiração. O Guardião fala ao público.)
GUARDIÃO:
A mesa girava no salão,
entre o riso e a atenção.
Uns buscavam passatempo,
outros, explicação.
Uma batida chamava.
Outra fazia pensar.
Nem tudo que causa espanto
nasce para assustar.
Quando a pergunta amadurece,
o fenômeno pede chão.
Faltava método à mesa,
faltava a luz da razão.
(Última batida.)
TOC.
(Escurece o salão. Surge, talvez em projeção, uma silhueta de livros, papéis e uma escrivaninha. Transição para o Ato 3.)
EXPOSIÇÃO DOUTRINÁRIA
EXPOSITOR:
Depois de Hydesville, relatos de manifestações semelhantes se multiplicaram nos Estados Unidos. Pessoas começaram a se reunir para observar pancadas, movimentos de objetos e tentativas de comunicação por sinais convencionados.
Em poucos anos, essas notícias atravessaram o Atlântico.
Por volta de 1852 e, especialmente, em 1853, as chamadas mesas girantes se tornaram uma verdadeira moda na Europa. Paris foi um dos grandes centros dessa febre.
É importante entender a cena que acabamos de assistir: Madame Delorme, Armand, Claire e HENRIETA não são personagens de uma sessão histórica específica. Eles representam os tipos de pessoas e situações descritos em muitos relatos daquela época.
Nos salões, os participantes colocavam as mãos sobre uma mesa e esperavam que ela se movimentasse. Algumas giravam, outras se inclinavam e outras batiam um dos pés no chão.
A princípio, aquilo era tratado muitas vezes como entretenimento. Faziam perguntas banais, curiosidades sobre casamento, dinheiro ou acontecimentos futuros.
Mas as experiências começaram a ganhar outra dimensão quando se convencionou utilizar pancadas para responder “sim” e “não” e, depois, letras do alfabeto para formar palavras e frases.
A pergunta então mudou.
Já não bastava saber se uma mesa podia se mover.
Era preciso entender se havia ou não alguma inteligência por trás das respostas.
E nem todo mundo aceitava a explicação espiritual.
Em 1853, por exemplo, o físico inglês Michael Faraday realizou experimentos com o fenômeno das mesas girantes. No tipo de experiência que ele examinou, concluiu que o movimento podia ser produzido pela pressão muscular inconsciente dos próprios participantes. O trabalho de Faraday foi importante porque mostrou a necessidade de controles e de cuidado antes de atribuir qualquer movimento a uma causa extraordinária.
Isso também faz parte da história.
Havia experiências sinceras, havia interpretações precipitadas, havia possibilidade de movimentos inconscientes e havia, naturalmente, casos de fraude. Ao mesmo tempo, continuavam sendo relatadas situações em que os participantes afirmavam obter respostas inteligentes e comunicações que, para eles, não se explicavam apenas pelo movimento involuntário da mesa.
O debate estava aberto.
E aqui está a diferença fundamental: ainda não existia Doutrina Espírita.
Existiam fenômenos.
Existiam espiritualistas.
Existiam magnetizadores, pesquisadores, curiosos, céticos e pessoas buscando contato com os mortos.
O Espiritismo não nasceu quando uma mesa girou.
A mesa girante foi uma das portas históricas que colocaram o problema diante da sociedade europeia.
E, com o tempo, os próprios meios de comunicação foram se modificando. As pancadas eram lentas. Passaram a usar pequenas cestas, pranchetas e lápis. Depois, a escrita feita diretamente pela mão do médium tornaria as comunicações mais rápidas.
Foi nesse ambiente que um educador francês chamado Hippolyte Léon Denizard Rivail ouviu falar das mesas.
Sua primeira reação não foi acreditar.
Também não foi ridicularizar.
Foi exigir que o fenômeno fosse observado.
E era exatamente essa mudança — da curiosidade para a investigação — que prepararia o caminho para Allan Kardec.
ATO 3 - Kardec e a Codificação
Paris, 1854-1857 - “Da mesa ao livro”
Clima / luz / som
Partes 1, 3 e 4: o gabinete de Rivail, com escrivaninha, livros, caneta, papéis e lamparina.
Parte 2: um pequeno salão, com mesa e cadeiras.
A luz do gabinete deve ser mais concentrada, sóbria, quase de estudo: âmbar, foco sobre papéis e livros.
Som: início com ecos discretos das batidas e da mesa girante. Depois, silêncio de estudo, caneta escrevendo, páginas sendo folheadas.
Projeção opcional ao fundo:
Paris, 1854-1857
Hippolyte Léon Denizard Rivail
O método encontra o fenômeno
Personagens em cena:
- Guardião;
- Hippolyte Léon Denizard Rivail / Allan Kardec;
- Amélie Boudet;
- Sr. Pâtier;
- Sra. Plainemaison;
- Julie Baudin;
- Caroline Baudin;
- Coral;
- Expositor.
Cena
(O Guardião da Promessa entra.)
GUARDIÃO:
A mesa girava.
A curiosidade crescia.
Os salões se enchiam de perguntas.
Mas uma pergunta, apenas uma,
mudaria o rumo da história:
e se, por trás do fenômeno,
houvesse uma lei?
Para isso, não bastava espanto.
Era preciso observação.
Era preciso paciência.
Era preciso método.
(Luz abre no gabinete. RIVAIL está à mesa, cercado de livros. AMÉLIE entra com alguns papéis.)
Parte 1 - O professor diante da notícia
(Amélie entra no escritório como que contando uma novidade)
AMÉLIE:
Hippolyte, trouxeram novos relatos sobre as mesas.
RIVAIL:
Mais mesas?
AMÉLIE:
Ao que parece, agora elas não apenas giram. Dizem que respondem.
RIVAIL:
Como assim, Respondem?
AMÉLIE:
Sim. Com pancadas. Com letras. Alguns dizem até que adivinham o futuro.
RIVAIL:
Mover uma mesa... ainda posso admitir como fenômeno físico desconhecido. Magnetismo, eletricidade, alguma força que não compreendemos. Mas uma mesa responder? Para isso, ela precisaria pensar.
AMÉLIE:
E uma mesa pensa?
RIVAIL:
Até onde sei, não tem cérebro.
AMÉLIE:
Então o senhor não acredita?
RIVAIL:
Eu não disse isso. Também não disse que acredito. Eu disse que ainda não vi.
AMÉLIE:
E quando vir?
RIVAIL:
Então observarei.
Parte 2 - A primeira observação e os estudos com a família Baudin
(Luz abre no primeiro espaço. Estão SR. PÂTIER e SRA. PLAINEMAISON. Há uma mesa. RIVAIL entra com postura reservada.)
SR. PÂTIER:
Professor Rivail, agradeço por ter vindo.
RIVAIL:
Eu que agradeço o convite, meu amigo Pâtier. Vim observar. Antes de explicar um fato, é preciso conhecê-lo.
SRA. PLAINEMAISON:
É isso que queremos, observe.
(Os participantes se posicionam. A mesa começa a se mover. Pode inclinar, girar ou bater, de maneira controlada.)
SR. PÂTIER:
Veja, Está se movendo!
RIVAIL:
Ninguém force a mesa. Quero ver o que acontece sem interferência.
(A mesa volta a se mover. Pode haver uma experiência simples, ainda imperfeita, com cesta ou ardósia.)
SR. PÂTIER:
E então, professor?
RIVAIL:
Então há um fato que eu ainda não sei explicar.
SRA. PLAINEMAISON:
Isso muda alguma coisa?
RIVAIL:
Muda a pergunta. Agora eu preciso descobrir a causa.
(A luz diminui. O Guardião atravessa o palco.)
GUARDIÃO:
Foi numa dessas reuniões que Rivail conheceu a família Baudin. E, pouco depois, seu estudo deixou de ser uma visita ocasional. Tornou-se investigação regular.
(Projeção: “Casa da família Baudin — Paris”. A luz abre em outro espaço. JULIE e CAROLINE se posicionam junto à mesa com a cesta com lápis. Rivail chega com caderno e papéis.)
CAROLINE:
Professor, seja bem-vindo novamente.
RIVAIL:
Obrigado, meninas. Hoje trouxe mais perguntas.
JULIE:
Muitas?
RIVAIL:
O suficiente.
CAROLINE:
E se as respostas trouxerem mais perguntas?
RIVAIL:
Melhor ainda!
Agora, concentrem-se
(As médiuns colocam as mãos sobre a cesta. O lápis começa a se mover.)
(Rivail acompanha sem entusiasmo teatral exagerado; anota, compara e volta a perguntar.)
RIVAIL:
Quem responde?
(Pausa. A cesta escreve. Uma projeção indica: “Espírito”.)
RIVAIL:
Afirmação interessante. Agora precisamos examiná-la.
JULIE E CAROLINE:
O senhor ainda duvida?
RIVAIL:
A dúvida não é inimiga da verdade, meninas. Ela obriga a perguntar melhor.
(Rivail abre o caderno.)
Não vim procurar previsão de futuro nem segredo de salão. Se existe uma inteligência se comunicando, quero compreender quem ela é, como vive e o que podemos aprender com isso.
Parte 3 - O método
(A cena volta ao gabinete de Rivail. A cada fala dele, uma projeção: OBSERVAR, COMPARAR, ANALISAR, CONCLUIR.)
RIVAIL:
Primeiro: observar.
(Surge a palavra OBSERVAR.)
RIVAIL:
Não partir de uma ideia pronta. Ver o fato como ele se apresenta.
(Ele escreve.)
RIVAIL:
Segundo: comparar.
(Surge a palavra COMPARAR.)
RIVAIL:
Uma resposta isolada pode enganar. Muitas respostas, vindas de lugares diferentes, precisam ser confrontadas.
(Ele recebe papéis de diferentes locais: “Paris”, “Lyon”, “Bordeaux”, “outros grupos”.)
RIVAIL:
Terceiro: analisar.
(Surge a palavra ANALISAR.)
RIVAIL:
Nem tudo o que vem dos Espíritos deve ser aceito sem exame. Eles são almas humanas, em diferentes graus de entendimento.
(Essa fala é importante. Deve ser dita com calma.)
AMÉLIE:
Então os Espíritos também podem se enganar?
RIVAIL:
Podem ter opiniões limitadas, como nós. Por isso, tudo deve passar pela razão, pela lógica e pela concordância dos ensinos.
(Surge a palavra CONCLUIR.)
RIVAIL:
E só então concluir.
AMÉLIE:
Isso não parece trabalho de uma noite.
RIVAIL:
Não é.
AMÉLIE:
Nem de um homem impaciente.
RIVAIL:
Por isso a pressa seria perigosa.
(Ele pega vários papéis e organiza em pilhas. As médiuns à esquerda continuam como imagem silenciosa. O coral ou vozes pode fazer uma sequência rítmica suave.)
CORAL:
Observa. Compara. Analisa. Conclui.
Pergunta. Escuta. Examina. Escreve.
(Rivail começa a formular perguntas. As respostas podem vir alternadas por médiuns ou vozes, de forma simbólica, sem tentar encenar literalmente o livro inteiro.)
RIVAIL:
Que é Deus?
(Silêncio reverente.)
CORAL:
A inteligência suprema. A causa primeira de todas as coisas
(Pausa. Rivail escreve.)
RIVAIL:
A alma sobrevive ao corpo?
CORAL:
A vida continua. O Espírito não morre com a matéria.
RIVAIL:
Para que nascemos tantas vezes?
CORAL:
Para aprender. Para reparar. Para progredir.
RIVAIL:
Qual é a lei maior?
CORAL:
Amar. Servir. Fazer ao outro o bem que desejas receber.
(Rivail para de escrever. Não há triunfalismo. Há responsabilidade.)
RIVAIL:
Isto não é uma brincadeira de salão.
AMÉLIE:
O que é, então?
RIVAIL:
Se for verdadeiro... é uma doutrina.
Parte 4 - O nascimento do livro
(No gabinete. Pilhas de papel. Amélie acompanha e ajuda a organizar.)
AMÉLIE:
São muitas perguntas.
RIVAIL:
E muitas respostas.
AMÉLIE:
O senhor as ordenou?
RIVAIL:
Sim. Das causas primeiras ao mundo espiritual. Das leis morais às esperanças e consolações.
AMÉLIE:
Parece uma arquitetura.
RIVAIL:
Uma arquitetura de ideias.
AMÉLIE:
E o título?
(Rivail olha para o manuscrito.)
RIVAIL:
O Livro dos Espíritos.
(Pequena pausa.)
AMÉLIE:
E assinará como professor Rivail?
RIVAIL:
Não. O nome Rivail já pertence à educação, aos livros de ensino e ao trabalho de professor. Esta obra não deve ser confundida com a minha carreira pessoal.
AMÉLIE:
Então como assinará?
RIVAIL:
Allan Kardec.
(O Guardião se aproxima, com o livro nas mãos.)
GUARDIÃO
Em dezoito de abril
de mil oitocentos e cinquenta e sete,
a promessa ganhou forma de livro.
Não como ponto final,
mas como começo.
As batidas tinham se tornado perguntas.
As perguntas tinham se tornado método.
E o método abriu caminho
para a Doutrina Espírita.
(Projeção opcional: “18 de abril de 1857 - O Livro dos Espíritos”.)
(O coral entra em posição )
Música / transição para o expositor
Solista
Do silêncio à pergunta, da pergunta à luz.
O que era espanto, ganhou caminho em Jesus.
Mãos que escrevem, olhos atentos, fé que aprende a pensar.
Quando a verdade vem, o Consolador ensinar.
[Rrefrão]
Luz à razão, paz ao coração.
A vida continua, pela evolução.
[Refrão final]
CORAL
Luz à razão, paz ao coração.
A promessa floresce em forma de consolação.
EXPOSIÇÃO DOUTRINÁRIA
EXPOSITOR:
Até aqui, vimos fenômenos. Batidas, mesas que se moviam e tentativas de comunicação. Mas fenômeno, por mais impressionante que seja, não constitui sozinho uma Doutrina.
É aqui que entra Hippolyte Léon Denizard Rivail.
Quando começou a se interessar por esses acontecimentos, Rivail já tinha uma trajetória respeitada como educador. Nascido em Lyon, em 1804, estudou ainda jovem no Instituto de Yverdon, na Suíça, dirigido por Johann Heinrich Pestalozzi, um dos grandes nomes da educação europeia. Depois, tornou-se professor, escreveu obras didáticas e trabalhou durante décadas com ensino.
Essa formação ajuda a entender a maneira como ele se aproximou dos fenômenos.
Em 1854, o magnetizador senhor Fortier falou a Rivail sobre mesas que giravam e se moviam. Rivail admitiu que pudesse existir alguma força física desconhecida atuando sobre os objetos.
Mas, quando Fortier lhe disse que as mesas também respondiam perguntas, a reação mudou. Rivail considerou a ideia absurda e disse, em essência, que só acreditaria depois de ver e compreender como uma mesa, que não possui cérebro nem nervos, poderia produzir respostas inteligentes.
Em 1855, depois de ouvir novos relatos de pessoas em quem confiava, Rivail aceitou assistir às experiências realizadas na casa da senhora Plainemaison, em Paris.
Ali viu, pela primeira vez, mesas que giravam, saltavam e se moviam, além de experiências ainda imperfeitas de escrita mediúnica com o auxílio de uma cesta.
Ele não saiu daquela reunião dizendo: “Agora acredito em tudo”. Sua conclusão foi mais cuidadosa: havia ali um fato e aquele fato precisava ter uma causa.
Foi numa dessas reuniões que conheceu a família Baudin. Depois, passou a frequentar regularmente as sessões realizadas na casa deles. As jovens Julie e Caroline Baudin atuavam como médiuns e utilizavam uma pequena cesta ligada a um lápis para produzir a escrita.
É nas reuniões da família Baudin que o próprio Kardec localiza o começo de seus estudos sérios do Espiritismo.
E aqui aparece um ponto decisivo do método.
Rivail percebeu muito cedo que os Espíritos não deveriam ser considerados infalíveis. Se eram as almas dos homens, continuavam apresentando diferentes níveis de conhecimento, experiência e desenvolvimento moral. Portanto, uma mensagem não se tornava verdadeira simplesmente porque vinha de um Espírito.
Era preciso observar.
Comparar.
Analisar.
Confrontar respostas.
Submeter tudo à razão e à lógica.
Rivail formulou perguntas sobre Deus, a origem e o destino dos Espíritos, a vida depois da morte, reencarnação, livre-arbítrio, leis morais, sofrimento, progresso e muitos outros temas. O material recebido era estudado, organizado e comparado.
Com o desenvolvimento do trabalho, Kardec formularia de modo ainda mais claro um princípio fundamental: os ensinamentos deveriam ser confrontados com comunicações obtidas por diferentes médiuns e em diferentes lugares, sempre submetidos ao exame da razão e da concordância. É o princípio que depois seria conhecido como controle universal do ensino dos Espíritos.
Isso também nos ajuda a entender o que significa dizer que Kardec codificou o Espiritismo.
Ele não foi apenas um copista de mensagens.
Organizou perguntas. Classificou temas. Comparou respostas. Redigiu comentários. Estabeleceu critérios. Deu ao conjunto uma estrutura didática, lógica e coerente.
Em 18 de abril de 1857, foi publicada em Paris a primeira edição de O Livro dos Espíritos.
É a partir daí que podemos falar de uma Doutrina Espírita organizada.
Rivail assinou a obra com o nome Allan Kardec, pseudônimo pelo qual passaria a ser conhecido.
E o trabalho não terminou naquele livro.
Em 1858, começou a publicar a Revista Espírita. Em 1861, veio O Livro dos Médiuns. Em 1864, O Evangelho Segundo o Espiritismo. Em 1865, O Céu e o Inferno. E, em 1868, A Gênese.
A curiosidade das mesas havia levado a uma investigação.
A investigação encontrou método.
E o método ajudou a organizar uma Doutrina que unia consequências filosóficas, morais e religiosas à observação dos fenômenos.
Mas a expansão dessas ideias também encontraria resistência.
ATO 4 - Provação e perseverança
Barcelona, 1861 / Paris, 1861-1869 - “A luz que não se queima”
Clima / luz / som
O ato começa com clima de tensão. A luz deve ser mais dura, com tons âmbar, vermelho escuro e sombra.
Parte 1: Barcelona, com caixas de livros, uma área pública, soldados ou funcionários da alfândega, uma fogueira simbólica.
Parte 2: gabinete de Kardec, com mesa, livros, papéis, caneta, lamparina e pilhas de manuscritos.
Som: páginas sendo folheadas, passos firmes, murmúrio de multidão, fogo, depois silêncio de trabalho no gabinete.
Projeções:
Barcelona, 9 de outubro de 1861
Auto de fé das obras espíritas
Paris, 31 de março de 1869
Personagens em cena
- Guardião da Promessa;
- Allan Kardec;
- Amélie Boudet;
- Agente Literário;
- Funcionário da alfândega;
- Mensageiro;
- Coral;
- Expositor.
Cena
(Ouve-se o som de páginas sendo viradas rapidamente, como se muitas mãos folheassem livros ao mesmo tempo.)
GUARDIÃO:
Quando uma luz nasce no mundo,
nem todos a recebem com alegria.
Alguns se aproximam para compreender.
Outros se afastam por medo.
Outros ainda tentam apagar
aquilo que não conseguiram entender.
Mas a verdade, quando vem de Deus,
não depende do papel que a carrega.
Podem ferir o livro.
Podem rasgar a página.
Podem lançar ao fogo a palavra escrita.
Mas não se queima uma ideia
quando ela já encontrou
morada nas consciências.
(Luz abre em Barcelona. Caixas de livros ao centro. Um REPRESENTANTE DO PROPRIETÁRIO conversa com um FUNCIONÁRIO DA ALFÂNDEGA. Esta cena dramatiza os fatos conhecidos sem colocar Maurice Lachâtre pessoalmente na cerimônia.)
Parte 1 - Os livros retidos
AGENTE LITERÁRIO:
Bom dia senhora!
Estes volumes vieram da França.
As taxas já foram pagas.
São livros destinados a um livreiro de Barcelona.
FUNCIONÁRIO DA ALFÂNDEGA:
Deixe-me ver.
Desculpe, a entrada desses livros foi impedida.
(A agente pega os livros e os guarda)
AGENTE LITERÁRIO:
Ei! Então me devolva!
Se não puderem entrar, vou levar a remessa de volta à França!
FUNCIONÁRIO DA ALFÂNDEGA:
Não posso, a devolução também foi recusada.
AGENTE LITERÁRIO:
Como assim?! Então o que será feito com os livros?
(Pausa.)
FUNCIONÁRIO DA ALFÂNDEGA:
Há uma ordem para destruí-los.
AGENTE LITERÁRIO:
Destruí-los?!
FUNCIONÁRIO DA ALFÂNDEGA:
Por determinação de Dom Antonio Palau y Termens, bispo de Barcelona, estas obras foram condenadas. Serão queimadas em praça pública.
(A luz baixa. Projeção: “Barcelona — 9 de outubro de 1861 — 10h30”. Murmúrio de multidão.)
Parte 2 - O Auto de Fé
(A área da fogueira simbólica se ilumina. Entram um SACERDOTE, um ESCRIVÃO ou secretário, funcionários e servidores da alfândega. O representante permanece à distância. A multidão cerca a cena.)
VOZ 1 CORAL:
O que vão queimar?
VOZ 2 CORAL:
Livros vindos da França.
VOZ 3 CORAL:
Livros espíritas.
(O funcionário retira alguns volumes e anuncia títulos. Não é necessário representar todos os livros da remessa.)
FUNCIONÁRIO DA ALFÂNDEGA:
Revista Espírita.
O Livro dos Espíritos.
O Livro dos Médiuns.
O que é o Espiritismo.
(Os volumes são lançados simbolicamente ao fogo. O coral faz um sussurro rítmico.)
CORAL:
Papel. Cinza. Silêncio.
Papel. Cinza. Silêncio.
(O murmúrio da multidão cresce. Algumas pessoas demonstram indignação. Outras apenas observam. Ao final, algumas se aproximam e recolhem pequenos fragmentos ou cinzas.)
VOZ 1 CORAL:
Podem queimar os livros... mas não conseguem apagar a pergunta.
(O REPRESENTANTE recolhe um fragmento queimado.)
AGENTE LITERÁRIO:
Isto seguirá para Paris. Kardec precisa saber o que aconteceu.
(O som do fogo se transforma em pena escrevendo. Luz fecha em Barcelona e abre no gabinete de Kardec.)
Parte 3 - A notícia chega a Kardec
(Kardec trabalha. Amélie está próxima. Um MENSAGEIRO entra com uma carta e um pequeno invólucro.)
MENSAGEIRO:
Senhor Kardec. Chegaram notícias de Barcelona.
(Kardec recebe a carta. Abre. O mensageiro mostra um fragmento chamuscado ou um pequeno recipiente simbólico com cinzas.)
AMÉLIE:
O que aconteceu?
KARDEC:
Os livros foram queimados.
AMÉLIE:
Todos aqueles volumes?
KARDEC:
Cerca de trezentos volumes e brochuras.
MENSAGEIRO:
Houve muita gente acompanhando a cerimônia. Alguns recolheram as cinzas.
(Kardec observa o fragmento. Pausa.)
AMÉLIE:
E agora?
KARDEC:
Agora continuamos.
MENSAGEIRO:
Depois de uma coisa dessas?
KARDEC:
Principalmente depois de uma coisa dessas. O fogo destrói papel. Não destrói uma ideia que já começou a circular.
(Kardec volta à mesa.)
KARDEC:
Temos trabalho a fazer.
(Kardec se senta e escreve.)
Parte 4 - O trabalhador e a obra
(A cena ganha passagem de tempo. O coral fala os títulos das obras. Kardec trabalha no gabinete. Amélie, às vezes, entrega papéis; às vezes, observa sua fadiga.)
(Projeções ou cartazes aparecem em sequência.)
CORAL:
O Livro dos Espíritos - 1857.
Revista Espírita - 1858.
O Livro dos Médiuns - 1861.
O Evangelho Segundo o Espiritismo - 1864.
O Céu e o Inferno - 1865.
A Gênese - 1868.
(Kardec escreve, organiza, corrige, recebe cartas. A luz mostra o peso do trabalho.)
AMÉLIE:
Hippolyte, já é tarde.
KARDEC:
Só mais algumas páginas.
AMÉLIE:
Ontem também foram só mais algumas páginas.
KARDEC:
Há cartas a responder. Textos a revisar. Obras a preparar. Grupos pedindo orientação.
AMÉLIE:
E há um corpo pedindo repouso.
(Kardec pausa. Sorri com ternura.)
KARDEC:
O corpo pede repouso. A tarefa pede perseverança.
AMÉLIE:
Uma coisa não precisa destruir a outra.
KARDEC:
Eu sei. Mas há momentos em que a vida nos pede tudo.
AMÉLIE:
E o senhor deu tudo.
KARDEC:
Não. Fiz apenas a minha parte.
(Ele segura uma carta.)
KARDEC:
Veja esta. Uma mãe consolada. Aqui, um homem que perdeu o medo da morte. Aqui, alguém que reencontrou a fé sem abandonar a razão.
AMÉLIE:
Então descanse por eles também.
KARDEC:
Amanhã.
(Amélie não insiste. A luz fica mais suave. Ela recolhe alguns papéis, deixando-o trabalhar.)
Parte 5 - 31 de março de 1869
(Projeção: “Paris, 31 de março de 1869”. Kardec prepara papéis. Amélie está fora de cena.)
KARDEC:
Estes documentos devem ficar juntos. As cartas, separadas. A obra ainda precisará de ordem.
(Ele se levanta, sente um mal-estar discreto. Apoia a mão na mesa. Respira.)
KARDEC:
Senhor... que eu tenha servido com fidelidade.
(Ele se deita no chão lentamente.)
(Silêncio.)
(Amélie entra e percebe.)
AMÉLIE:
Hippolyte...
(Ela se aproxima. Segura a mão dele. O coral, ao fundo, se aproxima lentamente.)
Membros do coral, um a um
Há vidas que parecem terminar, quando o corpo silencia.
Mas, para quem semeou luz, a partida não é apagamento.
O trabalhador repousa. A obra continua.
O homem entrega a pena. A ideia segue caminho.
Nascer. Morrer. Renascer ainda.
E progredir sempre.
Poesia / transição para o expositor
Durante a declamação:
- Amélie permanece segurando a mão de Kardec.
- O coral fica em meia-lua, em silêncio, segurando lanternas.
- No verso final, abre foco no expositor.
GUARDIÃO
Quando o fogo toca o livro,
pensa vencer a claridade.
Mas só transforma em cinza
o papel, não a verdade.
A mão que escreve descansa,
mas não descansa a missão.
Quem semeia luz na Terra
segue vivo em cada ação.
O trabalhador se cala,
a obra aprende a seguir.
A morte fecha uma porta,
mas Deus ensina a abrir.
Nascer, morrer, renascer,
progredir, servir e amar.
Onde a ideia encontra almas,
luz nenhuma vai se apagar.
EXPOSIÇÃO DOUTRINÁRIA
EXPOSITOR:
Depois de O Livro dos Espíritos, a Doutrina se espalhou rapidamente. Kardec passou a receber correspondências de muitos lugares, dirigia a Revista Espírita, acompanhava grupos de estudo e continuava trabalhando na organização das demais obras da Codificação.
Ao mesmo tempo, cresciam também as críticas e as resistências.
Um dos episódios mais conhecidos aconteceu na Espanha.
Em 1861, uma remessa de obras espíritas saiu da França com destino a Barcelona. Os livros haviam sido encomendados por Maurice Lachâtre, livreiro francês que vivia na cidade. A remessa foi retida pelas autoridades.
O destinatário tentou obter a liberação dos volumes. Como isso não aconteceu, pediu que fossem devolvidos à França. A reexportação também foi recusada.
Por determinação do bispo de Barcelona, os livros deveriam ser destruídos.
Na manhã de 9 de outubro de 1861, por volta das dez e meia, cerca de trezentos volumes e brochuras foram queimados publicamente numa esplanada da cidade.
E é importante fazer uma correção que às vezes se perde quando contamos essa história: não eram trezentos exemplares de um único livro, nem somente obras de Kardec. Era uma remessa formada por diferentes publicações espíritas e espiritualistas. Entre elas estavam O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O que é o Espiritismo, números da Revista Espírita e outras obras.
O próprio Kardec publicou, no mês seguinte, um relato detalhado do episódio na Revista Espírita. Segundo esse registro, estavam presentes um sacerdote, funcionários públicos e da alfândega, um representante do proprietário dos livros e uma grande quantidade de pessoas. Depois da queima, alguns presentes recolheram cinzas e fragmentos das obras.
Não contamos esse fato para alimentar ressentimento contra nenhuma religião. Trata-se de um episódio de intolerância religiosa de uma época, e ele deve ser apresentado como fato histórico, sem transformar pessoas ou instituições atuais em alvo de hostilidade.
Kardec percebeu que aquela tentativa de impedir a circulação das ideias poderia produzir justamente o efeito contrário: ao destruir publicamente os livros, despertava-se a curiosidade de quem talvez nunca tivesse ouvido falar deles.
E o trabalho continuou.
Em 1864 foi publicado O Evangelho Segundo o Espiritismo. Em 1865, O Céu e o Inferno. Em 1868, A Gênese. Kardec continuava escrevendo, revisando, respondendo cartas e acompanhando o desenvolvimento do movimento espírita.
Esse ritmo intenso também pesou sobre sua saúde. Em 31 de março de 1869, quando se preparava para mudanças na organização de seu trabalho e de suas atividades, Allan Kardec desencarnou em Paris.
A nossa base biográfica resume aquela vida de maneira muito expressiva: ele morreu como viveu, trabalhando.
Mas, para compreender a força desse momento, precisamos perceber uma coisa: quando Kardec desencarnou, a Doutrina já não dependia apenas da presença física de Kardec.
Os livros existiam. Os grupos existiam. A Revista circulava. As ideias haviam atravessado fronteiras.
O homem entregava a pena.
A obra seguia caminho.
E, do outro lado do Atlântico, o Espiritismo já começava a escrever um novo capítulo.
No Brasil.
3 EPÍLOGO - O Espiritismo no Brasil / A árvore do Evangelho
Tempo histórico e simbólico - “A promessa chegou até nós”
Clima / luz / som
O Epílogo começa como uma ponte histórica breve entre a desencarnação de Kardec e o desenvolvimento do Espiritismo no Brasil. Enquanto o expositor apresenta os marcos principais, projeções mostram documentos, datas e trabalhadores do movimento espírita brasileiro. Aos poucos, a linguagem histórica dá lugar à imagem simbólica inspirada em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.
A luz inicia sóbria, em tons azulados, acompanhando o fim do Ato 4. Durante a passagem para o Brasil, entram tons quentes e dourados. Na cena espiritual, predominam azul profundo, branco e dourado.
Som: páginas sendo folheadas, mar e vento suave na transição Brasil; depois, notas longas de teclado ou violão e coral vocalizando discretamente.
Personagens em cena:
- Jesus
- Guardião
- Helil
- Criança 1
- Criança 2
- Coral
Projeções sugeridas para a ponte histórica:
Brasil — segunda metade do século XIX
17 de setembro de 1865 — Grupo Familiar do Espiritismo, Salvador
Julho de 1869 — O Eco d’Além-Túmulo
2 de janeiro de 1884 — Fundação da Federação Espírita Brasileira
16 de agosto de 1886 — adesão pública de Bezerra de Menezes ao Espiritismo
Depois, uma sequência de trabalhadores do Espiritismo no Brasil. A seleção é simbólica e não pretende ser exaustiva: Luís Olímpio Teles de Menezes, Augusto Elias da Silva, Bezerra de Menezes, Anália Franco, Cairbar Schutel, Eurípedes Barsanulfo, Chico Xavier, Yvonne Pereira, Herculano Pires, Divaldo Franco e outros.
Ponte histórica para o Brasil
(O Ato 4 termina com a imagem de Kardec e a ideia de que a obra continuaria. A luz diminui. Ouve-se o som de mar. Ao fundo, uma projeção simples mostra o Atlântico: França de um lado, Brasil do outro.)
Cena:
Abertura:
GUARDIÃO:
Kardec deixou o corpo em Paris, mas a história não terminou com ele.
A Doutrina já não cabia num homem, numa cidade, num país.
Os livros atravessavam fronteiras.
As ideias atravessavam oceanos.
E, deste lado do Atlântico,
um novo capítulo começava a ser escrito.
(Foco no EXPOSITOR. Começam as projeções históricas.)
Fala do expositor — a chegada e o desenvolvimento no Brasil
EXPOSIÇÃO DOUTRINÁRIA
EXPOSITOR:
Quando Allan Kardec desencarnou, em março de 1869, o Espiritismo já começava a se organizar também no Brasil.
Antes disso, as notícias sobre as mesas girantes e os fenômenos mediúnicos já circulavam por aqui. Mas um dos marcos mais importantes dessa primeira fase aconteceu na Bahia.
Em 17 de setembro de 1865, Luís Olímpio Teles de Menezes participou, em Salvador, da criação do Grupo Familiar do Espiritismo, considerado o primeiro grupo espírita regularmente constituído no país.
Quatro anos depois acontece uma coincidência histórica muito significativa para o nosso espetáculo. Kardec desencarnou em 31 de março de 1869. Poucos meses depois, em julho daquele mesmo ano, Teles de Menezes lançou O Eco d’Além-Túmulo, o primeiro periódico espírita brasileiro.
A obra iniciada na França já encontrava trabalhadores deste lado do oceano.
Outros grupos surgiram. Livros foram traduzidos e estudados. Periódicos passaram a circular. O movimento cresceu em diferentes regiões, ainda com muitas divergências e formas distintas de organização.
Em 2 de janeiro de 1884, no Rio de Janeiro, foi fundada a Federação Espírita Brasileira, por iniciativa de Augusto Elias da Silva e outros companheiros. A FEB se tornaria uma referência importante na divulgação, no estudo e na organização do movimento espírita no país.
Pouco depois, outro nome passaria a ocupar lugar muito querido nessa história: Adolfo Bezerra de Menezes. Médico, homem público e trabalhador da caridade, Bezerra declarou publicamente sua adesão ao Espiritismo em 16 de agosto de 1886 e dedicaria boa parte de sua vida à divulgação da Doutrina e ao esforço de união entre os espíritas.
(E entram, lentamente, as projeções dos diversos expoentes. O expositor não precisa nomear todos; os nomes podem aparecer junto às imagens.)
Depois deles vieram muitos outros.
Alguns se tornaram conhecidos nacionalmente. Outros jamais tiveram seus nomes registrados nos livros.
Houve quem escrevesse. Quem ensinasse. Quem psicografasse. Quem fundasse escolas, hospitais, grupos de estudo e casas espíritas. Quem recebesse uma família em sofrimento. Quem evangelizasse uma criança. Quem abrisse um livro diante de poucos companheiros e dissesse: “vamos estudar”.
É assim que a história do Espiritismo no Brasil foi sendo construída: por grandes nomes, sim, mas também por milhares de trabalhadores anônimos.
(As projeções históricas começam a dar lugar a imagens de centros espíritas, estudos, evangelização, assistência e, por fim, ao próprio elenco.)
E é aqui que esta história deixa de falar somente sobre eles.
Porque a pergunta já não é apenas: “Como o Espiritismo chegou até nós?”
A pergunta passa a ser: “O que faremos nós com aquilo que recebemos?”
(O expositor sai. O Guardião caminha para o centro.)
GUARDIÃO:
A promessa atravessou a noite de Nicodemos.
Bateu em Hydesville.
Girou nas mesas.
Encontrou método com Kardec.
Resistiu ao fogo.
Atravessou o oceano.
Criou raízes.
E chegou até nós.
Agora, a história volta
ao ponto de onde partiu:
Jesus.
(As projeções históricas desaparecem. A luz se transforma lentamente numa visão espiritual. Jesus surge com simplicidade e serenidade. Com ele, Helil e Espíritos luminosos. Uma criança entra com a muda que simboliza a árvore do Evangelho.)
Parte 1 - A visão da Terra
HELIL:
Senhor, a Terra ainda sofre.
JESUS:
Sim, Helil. Ainda há dor nos caminhos humanos.
HELIL:
Os homens falam de amor, mas ainda se ferem. Falam de Deus, mas ainda se separam.
JESUS:
Por isso o Evangelho precisa renascer nos corações, não apenas nos lábios.
HELIL:
Onde plantaremos essa esperança?
(Jesus olha para a Terra, simbolizada pelo palco. Uma luz suave revela o contorno do Brasil projetado ao fundo.)
HELIL:
Ao sul, Senhor, há uma terra nova. Terra de muitos povos, de muitas dores, de muitas possibilidades.
JESUS:
Vejo nela um coração em preparo.
HELIL:
Um coração?
JESUS:
Um coração não é escolhido para se orgulhar. É chamado para pulsar.
(A criança com a muda dá um passo à frente, ainda em silêncio.)
Parte 2 - A árvore do Evangelho
(Espíritos luminosos iluminam a muda que está com a criança.)
HELIL:
Senhor, esta terra estará pronta?
JESUS:
Nenhuma terra está pronta sem trabalho. Nenhum povo recebe missão sem responsabilidade.
HELIL:
Então esta árvore será plantada aqui?
JESUS:
Sim. Mas suas raízes não serão de orgulho. Serão de serviço.
HELIL:
E seus frutos?
JESUS:
Caridade. Fraternidade. Consolação. Trabalho no bem.
(Jesus se aproxima da criança.)
JESUS:
Meus filhos, o que trazes nas mãos?
CRIANÇA 1:
Uma muda.
JESUS:
E sabes o que ela precisa para crescer?
CRIANÇA 2:
Terra... água... luz...
JESUS:
E amor.
CRIANÇA 1:
Amor também faz crescer?
JESUS:
Tudo o que é de Deus cresce pelo amor.
(Jesus toca ou abençoa simbolicamente a muda. A criança a coloca no centro do palco, em local preparado. Outras crianças entram lentamente, como sementes, luzes ou pequenas mudas.)
CRIANÇA 2:
Então vamos plantar.
(As crianças se posicionam ao redor da muda. Cada uma pode segurar uma pequena luz, folha ou fita verde.)
(O Guardião se aproxima. Ao fundo, a projeção dos personagens de todos os atos)
GUARDIÃO:
Cada tempo trouxe uma parte.
Cada trabalhador trouxe uma semente.
Nenhum deles era dono da árvore.
Todos serviram ao mesmo jardim.
A promessa não passou pela história
para ficar guardada em livros,
nomes e datas.
Ela chegou até nós
para virar escolha,
conduta,
serviço
e Evangelho vivido.
Parte 4 - A história chegou até nós
CRIANÇA 1:
Então essa história não terminou?
GUARDIÃO:
Não terminou.
CRIANÇA 2:
Ela continua na casa espírita?
GUARDIÃO:
Continua onde houver alguém disposto a servir e o Evangelho for vivido com sinceridade.
CRIANÇA 1:
E qual é o nosso lugar?
(Jesus se aproxima do centro. Todos olham para ele.)
JESUS:
O lugar de cada um é onde puder fazer o bem.
CRIANÇA 2:
Mesmo pequeno?
JESUS:
Nenhum gesto de amor é pequeno diante de Deus.
CRIANÇA 1:
E se falharmos?
JESUS:
Recomeçai.
CRIANÇA 2:
E se cansarmos?
JESUS:
Orai e ajudai-vos uns aos outros.
CRIANÇA 1:
E se a árvore demorar a crescer?
JESUS:
Cuidai dela assim mesmo.
(Silêncio. Jesus olha para todos.)
JESUS:
O Consolador não veio para encerrar a caminhada. Veio para lembrar que ninguém caminha sozinho.
(Todos se aproximam da árvore. A luz da árvore aumenta gradualmente.)
Parte 5 - Chamado final para a música
(Não entra expositor. O Guardião assume o fechamento falado e entrega a cena diretamente para a música.)
GUARDIÃO:
Esta história chegou até nós.
Não para ser apenas lembrada,
mas continuada.
A árvore foi plantada. (Oh, oh, oh, oh) - só o coral
A semente germinou. (Oh, oh, oh, oh) - coral + G1
A luz encontrou trabalhadores. (Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh) - coral + G1 + G2
Agora, cada coração precisa responder: (Oh, oh, oh, oh) - coral + G1 + G2 +G3
que parte da tarefa (Oh, oh, oh, oh) - coral + G1 + G2 + G3 + G4
cabe a mim? (Oh, oh, oh, oh, oh, oh) - Todos
(Pausa. Jesus coloca uma das mãos sobre a árvore ou sobre a muda. As crianças levantam pequenas luzes. O coral se posiciona.)
JESUS:
Ide e servi.
(Silêncio breve. Começa a introdução de “Corações Tarefeiros”.)
Música final - Corações Tarefeiros
Todos, à capela.
Já somos uma multidão
E temos tanto a fazer
Não cabe mais indecisão
Não há mais tempo a perder
Ignorar aptidão
É resvalar é cair
São tantas as obrigações
Já não dá mais pra fugir
Ninguém aqui precisa ser
O médium do ano
Um mar de virtudes
É só ser do bem
Doar um pouco de você
Doando a si mesmo, saúde e moral
Já são chegados os tempos de baixar o véu da ignorância
Pra dissipar as trevas dessa nossa santa rebeldia
As grandes vozes dos céus ressoaram
Tomemos a lira da boa vontade
E vamos ao divino conserto
Fazendo a vontade do pai
Corações tarefeiros de Deus
Na obra do bem, não há quem não possa
É de sombra, e de dor, toda ausência de amor
Não vê que a redenção do mundo tá batendo a porta
Corações tarefeiros de Deus
São tantos sinais
Você é a resposta
Mova seu coração
Mãos na massa cristão
Que a obra é de Jesus
Mas a tarefa é nossa
ENTRA A MÚSICA INSTRUMENTAL
Ohh Ohh Oooooooh
Ohh Ohh oooooooh
Já são chegados os tempos de baixar o véu da ignorância
Pra dissipar as trevas dessa nossa santa rebeldia
As grandes vozes dos céus ressoaram
Tomemos a lira da boa vontade
E vamos ao divino conserto
Fazendo a vontade do pai
Corações tarefeiros de Deus
Na obra do bem, não há quem não possa
É de sombra, e de dor, toda ausência de amor
Não vê que a redenção do mundo tá batendo a porta
Corações tarefeiros de Deus
São tantos sinais
Você é a resposta
Mova seu coração
Mãos na massa cristão
Que a obra é de Jesus
Mas a tarefa é nossa
Ohh Ohh Oooooooh
Ohh Ohh oooooooh